26/03/2010

O caminho da aprendizagem

É papel do educador ajudar o aluno a redimensionar a autoconfiança e valorizar mais a reflexão do que o resultado de cada trabalho
Aprender não é fácil. Exige do estudante disposição para enfrentar o desconhecido e encarar dificuldades, contradições, dilemas e desafios que de forma natural ou artificial perturbam. Esses desafios assumem contornos de obstáculos à medida que os recursos intelectuais dele não são suficientes para compreendê-los. O jovem precisa, então, acionar o que sabe. Somente ao colocar em prática seus esquemas de assimilação já construídos ele estabelece novas relações para tentar entender o que não sabe. Um novo objeto de conhecimento apresenta resistência e, para conhecê-lo mais de perto, é necessário acionar conhecimentos prévios e lançar mão de algum (ou muito) esforço intelectual. Depois de aproximações sucessivas e reflexões sobre o novo, crianças e adolescentes têm condições de passar de um estado de menor para um de maior conhecimento. Portanto, para compreender algo, é necessário refletir, pensar, estabelecer relações e resistir mais do que os próprios objetos de conhecimento.

Os alunos que se sentem fortalecidos a enfrentar as tensões propostas nas situações de sala de aula se relacionam mais com o conhecimento do que com o conhecido. Eles estão dispostos a redimensionar a capacidade de autoria em suas produções, e suas motivações para estudar tornam-se profundas, não se deixando macular pelas adversidades. Por outro lado, aqueles que não se sentem encorajados a enfrentar esses dilemas acabam ocupando o lugar do fracasso. Em vez de consolidar a ideia de que muitos estudantes têm dificuldades de aprendizagem, é mais produtivo pensar em meios para ajudá-los a reconhecer suas potencialidades para lidar com as tensões do processo.

A percepção da própria capacidade depende da forma como cada um é visto. A imagem construída pode ser positiva ou negativa e o reconhecimento das próprias habilidades é determinante para a vida escolar. Para avançar, é preciso expor ideias, hipóteses, representações e teorias. Sem autoconfiança, o aluno não diz o que sabe por medo e por pensar que não é capaz de aprender.

O professor é a peça-chave para ajudar os estudantes a se reconhecer como sujeitos intelectualmente ativos. Entre as ações que favorecem a relação com o conhecimento estão averiguar o que os alunos pensam sobre o objeto a ser estudado e reconhecer que há um grande esforço intelectual por trás das ideias e representações expostas. À medida que o professor conhece os saberes do grupo, tem mais condições de regular o desafio nas propostas em sala, atendendo às necessidades de cada um. Quando se depara com a diversidade, não pode classificar quem sabe menos como alguém que tem dificuldade de aprendizagem. Essas duas condições não são idênticas ou equivalentes. Ter menos conhecimento do que a maioria apenas indica que o estudante precisa de mais atenção ou de atividades diferenciadas.

Cabe ao educador ajudar a impulsionar e a infundir o desejo de enfrentar os dilemas inevitáveis do processo de aprendizagem. Um bom ponto de partida é reconhecer que ele não é fácil, não é uma brincadeira. Muitos alunos avaliados como tendo dificuldades, na verdade estão desencorajados a enfrentar as contradições intrínsecas desse processo. É preciso ajudá-los a redimensionar a autoconfiança diante dos desafios, legitimando a possibilidade dos erros e valorizando mais a reflexão do que o resultado acabado.
Para compreender algo novo, é essencial ter uma boa dose de coragem, ousadia e persistência. Ensinar pressupõe articular o modo de ser e pensar do aluno com as estruturas epistemológicas dos conteúdos. A baliza dessas ações são o compromisso, o trabalho, o afeto e a implicação de todos os envolvidos. Esse é o caminho da aprendizagem.

Beatriz Gouveia

25/03/2010

A LAGARTIXA E A BORBOLETA

Marlene B. Cerviglieri

Viviam no beiral de uma casa, dona Lagartixa e sua enorme família. Ali abrigadas se reuniam em torno de seus filhotinhos, só saiam para procurar comida. Eram muito ligeiras e apesar de seus rabinhos longos, corriam bem depressa. Certa manhã a mamãe Lagartixa saiu para procurar comida, mas avisou suas lagartixinhas que ficassem bem quietinhas, nada de dar passeio pelas janelas ou nas paredes. Lá foi a mamãe pensando que iria ser atendida por suas filhinhas. Qual nada. Assim que ela saiu, as lagartixinhas olharam umas para as outras e disseram:
- O que vamos fazer se não podemos sair daqui?
- Ora, ora vamos dar uma voltinha na janela, ver se achamos algum mosquitinho!
Seus olhinhos brilhavam só em pensar de achar um mosquitinho na janela. Uniram-se e foram. Nesta mesma manhã a Borboleta que voava no jardim, beijando todas as flores que via, resolveu dar uma paradinha no batente da janela!
Ficava pousada no vidro. Às vezes, voava para o jardim ou ficava pousada no batente da janela. As lagartixinhas, que nunca haviam visto uma Borboleta, estavam encantadas com seu vestuário e sua agilidade.
- Veja ela tem quatro cores, e os olhinhos brilham, e como vai de um lugar para outro!
- Ela está voando - disse uma delas.
- O que é voar? Perguntaram as outras.
- Ora é andar sem pôr os pés no chão...
- Ouvi dizer que os pássaros também fazem isso É mesmo?
- Pois eu acho que nós devíamos voar também!
- Você está louca! - respondeu a irmãzinha já ficando preocupada.
De nada adiantou pedir e até implorar para que ficassem quietas ali. Afinal já haviam desobedecido a mamãe. E agora ? Tentou mais uma vez falar com elas mas nada.
Sendo assim ficou num cantinho do beiral observando para ver o que elas iriam fazer. Não tinham como se apoiar e o rabinho até atrapalhava, mesmo assim se colocaram em posição quase de pé e se atiraram para o jardim. Claro que aconteceu o que se esperava, caíram pesadamente no chão. Todas doloridas, faltando pedacinho de rabo em uma, e agora? Foi quando a irmã, que não as acompanhou nesta loucura, gritou para elas:
- Esperem, vou buscar ajuda.
Assim o fez e veio com a mamãe Lagartixa. Depois de levá-las para casa e cuidar dos ferimentos, a mamãe tinha uma lição para ensinar:
- Primeiro vocês me desobedeceram, só de sair sem conhecer lá fora já foi um perigo grande. Agora vocês inventam de querer voar também?
- Mas mamãe, vimos a dona Borboleta ela faz tudo tão devagar não parecia perigoso.
- Muito bem minhas filhinhas, a dona Borboleta já nasceu para voar!
- Como assim mamãe?
- Alguns animais nascem sabendo o que fazer, é da raça dela.
- Vocês não poderiam sair por ai voando nunca, só se alguém as atirasse!
- Imaginem o Totó voando? Ou o Burrico?
- Por isso digo que cada um deve ficar no seu canto com os seus encantos.
- Encantos mamãe?
- Sim todos nós temos os nossos encantos, não precisamos copiar ninguém, pois não será a mesma coisa. Entenderam o que a mamãe disse?
Rindo responderam:
- Sim mamãe. Mas que seria muito gozado ver o elefante voando, ah seria...
Rindo apreenderam a lição e até hoje o rabinho delas ainda está crescendo. É porque as lagartixas se perdem um pedacinho, volta a crescer.
- Interessante não é?
Cada uma com os seus dons, cada um dentro de sua raça, com seus encantos.
- E você já sabe quais são os seus?

24/03/2010

DICAS para Alfabetização

DICAS para Alfabetização

O professor deve usar a criatividade para competir com os atrativos que estão ao alcance de seus alunos fora da escola. Use a sua criatividade e suas aulas serão mais atrativas. Seus alunos despertarão o interesse pelo estudo. E você se sentirá recompensado e valorizado.

Ao substituir a pedagogia tradicional por atividades mais próximas da vivência diária dos alunos, o professor provoca maior interesse nos educandos pela aprendizagem.

Tome nota das seguintes dicas e procure colocá-las em prática, fazendo as devidas adaptações, conforme a sua realidade:

- Use jogos educativos nas suas aulas.

- Desenvolva atividades lúdicas com seus alunos.

- Procure introduzir cada novo conteúdo de forma diferente.

- Mude a disposição das cadeiras e mesas na sala de aula.

- Faça os alunos participarem das aulas.

- Troque de ambiente e dê aula no pátio da escola, por exemplo.

- Explore cartazes, vídeos, filmes.

- Traga jornais e revistas para a sala de aula.

- Aproveite todo o ambiente escolar.

- Leia sempre bons livros para eles e incentive-os a ler mesmo sem saber.


- Crie aulas diferentes e divertidas.

- Elabore situações problemas para os seus alunos resolverem.

- Busque auxílio nos meios de comunicação.

- Troque experiências com os colegas.

- Valorize as opiniões de seus alunos.

- Peça sugestões aos seus alunos quando for preparar suas aulas.

- Faça trabalhos em pequenos grupos ou grupos sucessivos.

-Solicite uma avaliação das suas aulas aos seus alunos.

-Incentive e estimule a aprendizagem dos seus alunos.

- Deixe transparecer que você acredita e valoriza o seu trabalho.




Com carinho de José Maria...

bom trabalho a todos.

19/03/2010

A ÁRVORE DEITADA

Marlene B. Cerviglieri


Ali no meio do parque estava a arvore deitada. Seu tronco era imenso e seus galhos pareciam ganchos esparramados ao seu redor. Mesmo assim despertava um fascínio em todos os que por ali passavam. Ninguém sabia, no entanto, que aquela mesma árvore, de mais de cem anos, tinha sido um dia frondosa cheia de folhas e de muita sombra. Sofreu por muito tempo ali deitada, não deixando transparecer que estava muito triste.
- Sou uma árvore careca. Pensava.
Realmente não tinha mais nenhuma folha em seus galhos. No dia que foi derrubada pela ventania muito forte, mas muito forte mesmo, perdeu toda as suas folhas. Ali deitada com a raiz a mostra permanecia como que calada esperando que algo mais acontecesse.
- Que será de mim agora? - pensava quietinha deitada no chão. Os pássaros não vão mais querer fazer os seus ninhos, não há mais segurança, pois estou toda sem folhas.
Quanto mais pensava mais triste ia ficando. Daí que uma manhã surgiu no parque um bando de meninos e meninas vindos de uma escola, para lá passarem algumas horas. Normalmente isto sempre acontecia. Porém naquele dia aconteceu um fato muito bonito. Interessante como diria minha professora.
As crianças depois de andarem em todos os brinquedos existentes, e de fazerem muito barulho estavam cansados demais. Que fazer? Os bancos eram de cimento e duros. Surgiu então a grande idéia.
- Veja - disse um deles - ali está uma enorme árvore!
- E deitada. - disse o outro. Parece uma cama enorme, vamos até lá.
Assim sendo subiram com facilidade na arvore deitada. Encaixaram-se tão bem em seus galhos, e lá descansaram. Quando voltaram para a escola tiveram que relatar o passeio. É claro que o assunto imediato foi a árvore deitada. Como falaram tanto dela a outra classe pediu também para ir vê-la.
Hoje a árvore deitada é procurada por muitos jovens que se sentem bem a vontade para subir nela, sentar lá em cima e descansarem. Às vezes pensamos que tudo está perdido, não terá mais solução. Engano nosso, para tudo tem jeito, é uma questão de sabermos esperar e ter paciência. Os fatos mudam nada é para sempre.
Do medo de ir para a fogueira que tinha a árvore, pois achava que não servia para mais nada. Tornou-se o lugar mais procurado do parque. Quando estiveres achando que nada mais vai dar certo, espere e verás que o conserto logo virá. Existem mil formas de ser, não necessariamente precisam ser sempre as mesmas. O difícil é aceitar as diferentes, pois as conhecidas são fáceis. No tombo mesmo permanecendo deitado, existe a transformação. Sejamos como a árvore e pensemos positivo para enfim podermos ajudar e sermos ajudados.



18/03/2010

Textos para leitura diaria

FILHOTINHOS DA RUA

Marlene B. Cerviglieri

A noite estava fria e chuvosa como sempre é no inverno. As calçadas molhadas, o céu muito escuro dando até medo. Naquela praça existiam várias casas bonitas, todas com grandes escadas.
Como toda praça, aquela tinha arvores frondosas, onde muitos pássaros moravam em seus ninhos, cuidando de seus filhotinhos.
Num galho, bem alto de uma destas arvores, estava a Coruja com seus olhos enormes, atenta aos movimentos pronta para sua caça.
Ali não era sua morada, pois coruja mora no chão. Fazem um buraco e formam suas ninhadas. É divertido ver as moradias das corujas, principalmente a noite quando resolvem sair.
Bem, mas não estou a fim de falar sobre corujas. É ela quem vai nos contar a estória dos filhotinhos.
Lá do alto da árvore via toda a rua, e assim viu quando uma cachorrinha vinha chegando bem morosamente, quero dizer devagarzinho.
Olhou para as casas com um olhar triste e nesta olhada viu a coruja toda pomposa no alto da árvore
- Oi amiga, qual escada será melhor para eu dormir esta noite?
- Eu diria que qualquer uma. Nesta noite fria o melhor seria entrar na casa, não é mesmo?
- Claro, sem duvida minha amiga! Mas como vou entrar? Tudo tão bem fechado... e se me descobrem me chutam para fora.
- Sabe amiga cachorrinha, aprendi que nesta vida precisamos querer alguma coisa. Mas devemos merecer isto, não é só querer!
- Já vi que você com toda a sua sabedoria irá me ensinar, como?
- Simples, minha cara.
- Primeiro: você quer, realmente, entrar nesta casa?
- Claro, não estou para brincadeiras!
- Nem eu! - disse a coruja já andando impaciente em seu galho.
- Pois então me escute.
- Primeiro devemos ter certeza do que queremos depois verificar se é possível e se vai valer o esforço.
- Bem, querer eu quero, pois se agora estou morrendo de frio, imagine mais tarde.
- Então, minha cara, tente alguma coisa e vá em frente.
A cachorrinha olhou para a enorme porta. Farejou e até sentiu cheiro de comida, de tanta fome que tinha.
Pensou: - Se eu latir incomodo e aí me mandam embora.
Bater na porta, como?
É, parece que o esforço terá que ser bem maior.
Desceu as escadas, e para espanto da coruja foi embora.
- Eu sabia - pensava a coruja - já desistiu. Não esperou nem por um pedacinho de pão!
- Eu fico aqui horas esperando uma caça, mas fico...
Eis que dali uma hora, mais ou menos, aparece de novo a cachorrinha seguida por seus quatro filhotinhos.
Subiram as escadas, e começaram a brincar bem em frente a porta.
Logo esta se abriu, e duas crianças gritaram de alegria. Pegaram os filhotinhos no colo e levaram todos para dentro.
- Mas meus filhos, não podem ficar com todos! dizia a mamãe já preocupada.
- Papai achará uma solução. Poderá levar dois ou três para o depósito. Vamos dar leite para os filhotinhos e comida para a mamãe deles.
E assim a cachorrinha ficou morando no deposito com dois filhinhos, os outros ficaram na casa.
É dona coruja, seu julgamento foi errado e muito precipitado.
Cada um tem seu jeito de resolver os problemas. Devemos dar-lhes liberdade de pensamento, ou seja, deixar cada um pensar do seu modo. Nunca devemos julgar os outros. Espere antes de falar porque, às vezes, você tem uma bela surpresa.
O que você nunca havia imaginado o outro imaginou!

PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS - ENSINO MÉDIO PARTE 1 - BASES LEGAIS

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PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS - ENSINO MÉDIO PARTE 1 - BASES LEGAIS “Os Parâmetros Curriculares Nacionais servirão de estímulo e apoio à reflexão sobre a prática diária do professor, o planejamento de suas aulas e o desenvolvimento do currículo de sua escola.” (p. 10) “Os PCN do Ensino Médio buscam dar significado ao conhecimento escolar, mediante a contextualização, e evitar a compartimentalização, mediante a interdisciplinaridade.” (p. 12) “A formação do aluno deve visar à aquisição de conhecimentos básicos, à preparação científica e à capacidade para usar as diferentes tecnologias relativas à área de atuação.” (p. 14) “A reorganização curricular em áreas de conhecimento tem o objetivo de faciliar o desenvolvimento dos conteúdos, numa perspectiva de interdisciplinaridade e contextualização.” (p. 18) “O Ensino Médio é a etapa final de uma educação de caráter geral que situa o educando como sujeito produtor de conhecimento e participante do mundo do trabalho.” (p. 20) APRESENTAÇÃO “O Ensino Médio no Brasil está mudando. A consolidação do Estado democrático, as novas tecnologias e as mudanças na produção de bens, serviços e conhecimentos exigem que a escola possibilite aos alunos integrarem-se ao mundo contemporâneo nas dimensões fundamentais da cidadania e do trabalho.” (p. 13) Um novo perfil de currículo apoiado em competências básicas para inserção dos jovens na vida adulta. “... buscamos dar significado ao conhecimento escolar, mediante a contextualização; evitar a compartimentalização, mediante a interdisciplinaridade; e incentivar o raciocínio e a capacidade de aprender.” (p. 13) “Estes Parâmetros cumprem o duplo papel de difundir os princípios da reforma curricular e orientar o professor, na busca de novas abordagens e metodologias.” (p. 13) O NOVO ENSINO MÉDIO “O Brasil, como os demais países da América Latina, está empenhado em promover reformar nas área educacional que permitam superar o quadro de extrema desvantagem em relação aos índices de escolarização e de nível de conhecimento que apresentam os países desenvolvidos.” (p. 15) O fator econômico (ruptura tecnológica - terceira revolução técnico-industrial - com preponderância dos avanços da micro-eletrônica), que promove mudanças no conhecimento e seus desdobramentos, no que se refere à produção e às relações sociais de modo geral, exige que a formação do aluno tenha como alvo principal a aquisição de conhecimentos básicos, a preparação científica e a capacidade de utilizar diferentes tecnologias relativas às áreas de atuação. Não se trata mais de acumular conhecimentos. “Propõe-se, no nível do Ensino Médio, a formação geral, em oposição à formação específica, o desenvolvimento de capacidades de pesquisar, buscar informações, analisá-las e selecioná-las; a capacidade de aprender, criar, formular, ao invés do simples exercício de memorização.” (p. 16)
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O Ensino Médio no Brasil expande-se consideravelmente. Entre 1996 e 1997, as matrículas cresceram 11,6%. O índice de escolarização líquida ainda não ultrapassa os 25%. Nos países do cone sul, este índice alcança de 55 a 60% e na maioria dos países de língua inglesa do Caribe, cerca de 70%. “Pensar um novo currículo para o Ensino Médio coloca em presença estes dois fatores: as mudanças estruturais que decorrem da chamada „revolução do conhecimento‟, alterando o modo de organização do trabalho e as relações sociais; e a expansão crescente da rede pública, que deverá atender a padrões de qualidade que se coadunem com as exigências desta sociedade.” (p. 16) O PROCESSO DE TRABALHO Modelo do projeto de reforma curricular: diálogo constante entre Secretaria de Educação Média e Tecnológica, equipe técnica coordenadora da reforma e diversos setores da sociedade civil. Primeira reunião: elaborar uma proposta flexível e exeqüível por todos os Estados da Federação, considerando as desigualdades regionais. Primeira versão propôs a reorganização curricular em áreas de conhecimento, “... com o objetivo de facilitar o desenvolvimento dos conteúdos, numa perspectiva de interdisciplinaridade e contextualização.” (p. 17) Como consultores especialistas foram convidados professores universitários com reconhecida experiência nas áreas de ensino e pesquisa. O debate foi ampliado nos Estados, com reuniões de professores representantes, Secretários de Estado, consultores especialistas, reuniões com professores das redes públicas de SP e RJ, escolhidos aleatoriamente, debates abertos à população, organizado pelo Jornal Folha de São Paulo no início de 1997. Os trabalhos de elaboração da reforma foram concluídos em junho de 1997. O Parecer CNE/CEB nº 15/98, que teve como relatora Guiomar Namo de Mello, integra a Resolução CNE/CEB nº 3/98. A LDB foi a principal referência legal para a formulação das mudanças propostas. A LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL E A REFORMA CURRICULAR DO ENSINO MÉDIO
 Ensino Médio é Educação Básica
A nova LDB determina que Ensino Médio é Educação Básica. A Constituição de 1988 já prenunciava essa concepção no inciso II do artigo 208, quando garantia como dever do Estado “progressiva estensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio”. Posteriormente, a Emenda 14/96 modificou a redação sem alterar o espírito: “a progressiva universalização do ensino médio gratuito”. A Constituição confere a esse nível de ensino o estatuto de direito de todo cidadão. “A alteração provocada pela Emenda Constitucional merece, entretanto, um destaque. O Ensino Médio deixa de ser obrigatório para as pessoas, mas a sua oferta é dever do Estado, numa perspectiva de acesso para todos aqueles que o desejarem. Por sua vez, a LDB reitera a obrigatoriedade progressiva do Ensino Médio, sendo esta, portanto, uma diretriz legal, ainda que não mais constitucional.” (p. 21) Art. 21 da LDB: A educação escolar compõe-se de Educação Básica (educação infantil, ensino fundamental e ensino médio) e Educação Superior.
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Ensino Médio “... passa a integrar a etapa do processo educacional que a Nação considera básica para o exercício da cidadania, base para o acesso às atividades produtivas, para o prosseguimento nos níveis mais elevados e complexos de educação e para o desenvolvimento pessoal, referido à sua interação com a sociedade e sua plena inserção nela...” (p. 21)
 O Ensino Médio como etapa final da Educação Básica
LDB explicita o Ensino Médio como etapa final da educação básica (art. 36). Passa a ter a característica da terminalidade. “O Ensino Médio, portanto, é a etapa final de uma educação de caráter geral, afinada com a contemporaneidade, com a construção de competências básicas, que situem o educando como sujeito produtor de conhecimento e participante do mundo do trabalho, e com o desenvolvimento da pessoa, como „sujeito em situação‟- cidadão.” (p. 22) “Na perspectiva da nova Lei, o Ensino Médio, como parte da educação escolar, „deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social‟. Essa vinculação é orgânica e deve contaminar toda a prática educativa escolar.” (p. 22) Em suma, a lei busca:
 a formação da pessoa, de maneira a desenvolver valores e competências necessárias à integração de seu projeto individual ao projeto da sociedade em que se situa;
 o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
 a preparação e orientação básica para a sua integração ao mundo do trabalho, com as competências que garantam seu aprimoramento profissional e permitam acompanhar as mudanças que caracterizam a produção no nosso tempo;
 o desenvolvimento das competências para continuar aprendendo, de forma autônoma e crítica, em níveis mais complexos de estudo.
O PAPEL DA EDUCAÇÃO NA SOCIEDADE TECNOLÓGICA “A proposta da interdisciplinaridade é estabelecer ligações de complementaridade, convergência, interconexões e passagens entre os conhecimentos.” “A centralidade do conhecimento nos processos de produção e organização da vida social rompe com o paradigma segundo o qual a educação seria um instrumento de „conformação‟ do futuro profissional ao mundo do trabalho. Disciplina, obediência, respeito restrito às regras estabelecidas, condições até então necessárias para a inclusão social, via profissionalização, perdem a relevância, face às novas exigências colocadas pelo desenvolvimento tecnológico e social.” (p. 23) A nova sociedade apresenta características possíveis de assegurar à educação uma autonomia ainda não alcançada. “Isto ocorre na medida em que o desenvolvimento humano passa a coincidir com o que se espera na esfera da produção.” (p. 23) “O novo paradigma emana da compreensão de que, cada vez mais, as competências desejáveis ao pleno desenvolvimento humano aproximam-se das necessárias à inserção no processo produtivo. Segundo Tedesco, aceitar tal perspectiva otimista seria admitir que vivemos “uma circunstância histórica inédita, na qual as capacidades para o desenvolvimento produtivo seriam idênticas para o papel do cidadão e para o desenvolvimento social”. (p. 23)
Em contrapartida, a aproximação entre as competências desejáveis não garante homogeneização das oportunidades sociais. “Há que considerar a redução dos espaços para
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os que vão trabalhar em atividades simbólicas, em que o conhecimento é o instrumento principal, os que vão continuar atudando em atividades tradicionais e, o mais grave, os que se vêem excluídos.” (p. 23) A expansão da economia pautada no conhecimento não exclui os fatos que comprometem os processos de solidariedade e coesão social (exclusão e segmentação) com suas conseqüências: o desemprego, a pobreza, a violência, a intolerância. Essa tensão pode se traduzir no âmbito social em quantos e quais segmentos terão acesso a uma educação que contribua efetivamente para sua incorporação. Outro dado diz respeito à necessidade de competências básicas para o exercício da cidadania e desempenho de atividades profissionais. “De que competências se está falando? Da capacidade de abstração, do desenvolvimento do pensamento sistêmico, ao contrário da compreensão parcial e fragmentada dos fenômenos, da criatividade, da curiosidade, da capacidade de pensar múltiplas alternativas para a solução de um problema, ou seja, do desenvolvimento do pensamento divergente, da capacidade de trabalhar em equipe, da disposição para procurar e aceitar críticas, da disposição para o risco, do desenvolvimento do pensamento crítico, do saber comunicar-se, da capacidade de buscar conhecimento. Estas são competências que devem estar presentes na esfera social, cultural, nas atividades políticas e sociais como um todo, e que são condições para o exercício da cidadania num contexto democrático.” (p. 24) Não se pode mais postergar a intervenção no Ensino Médio para superar uma escola que “... pretende formar por meio da imposição de modelos, de exercícios de memorização, da fragmentação do conhecimento, da ignorância dos instrumentos mais avançados de acesso ao conhecimento e da comunicação.” (p. 24) Ao manter-se tradicional, a escola acabará por se marginalizar. Uma nova concepção curricular para o Ensino Médio deve expressar a contemporaneidade e, ter a ousadia de se mostrar prospectiva. O ponto de partida é o reconhecimento das condições atuais de organização dos sistemas estaduais quanto à oferta do Ensino Médio. É necessário investir na área de macroplanejamento, visando ampliar racionalmente a oferta de vagas. Também é essencial investir na formação dos professores. A crescente presença da ciência e da tecnologia nas atividades produtivas e nas relações sociais precisa ser considerada. “É possível afirmar que o crescimento econômico não gera mais empregos ou que concorre para a diminuição do número de horas de trabalho e, principalmente, para a diminuição de oportunidades para o trabalho não qualificado.” (p. 25) O deslocamento das oportunidades de trabalho para o terciário não significa menor exigência em relação à qualificação do trabalhador. “... a velocidade do progresso científico e tecnológico e da transformação dos processos de produção torna o conhecimento rapidamente superado, exigindo-se uma atualização contínua e colocando novas exigências para a formação do cidadão.” (p. 25) “A revolução tecnológica, por sua vez, cria novas formas de socialização, processos de produção e, até mesmo, novas definições de identidade individual e coletiva. Diante desse mundo globalizado, que apresenta múltiplos desafios para o homem, a educação surge como a utopia necessária indispensável à humanidade na sua construção da paz, da liberdade e da justiça social.” (p. 25)
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A nova perspectiva para o Ensino Médio “... é de uma aprendizagem permanente, de uma formação continuada, considerando como elemento central dessa formação a construção da cidadania em função dos processos sociais que se modificam.” (p. 25) Objetivos de formação do Ensino Médio: formação ética e desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico. “Não há o que justifique memorizar conhecimentos que estão sendo superados ou cujo acesso é facilitado pela moderna tecnologia. O que se deseja é que os estudantes desenvolvam competências básicas que lhes permitam desenvolver a capacidade de continuar aprendendo.”(pp. 25-7) a) a educação deve cumprir triplo papel: econômico, científico e cultural; b) a educação deve ser estruturada em quatro alicerces: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver e aprender a ser. A REFORMA CURRICULAR E A ORGANIZAÇÃO DO ENSINO MÉDIO “O currículo deve contemplar conteúdos e estratégias de aprendizagem que capacitem o aluno para a vida em sociedade, a atividade produtiva e experiências subjetivas.” (p. 28) “O currículo, enquanto instrumentação da cidadania democrática, deve contemplar conteúdos e estratégias de aprendizagem que capacitem o ser humano para a realização de atividades nos três domínios da ação humana: a vida em sociedade, a atividade produtiva e a experiência subjetiva, visando à integração de homens e mulheres no tríplice universo das relações políticas, do trabalho e da simbolização subjetiva.”(p. 29) Nessa perspectiva, são diretrizes as quatro premissas apontadas pela UNESCO como eixos estruturais da educação na sociedade contemporânea:
 Aprender a conhecer
Considera-se a importância de uma educação geral, suficientemente ampla, com possibilidade de aprofundamento em determinada área de conhecimento. O aumento dos saberes favorece o desenvolvimento da curiosidade intelectual, estimula o senso crítico e permite compreender o real “Aprender a conhecer garante o aprender a aprender e constitui o passaporte para a educação permanente, na medida em que fornece as bases para continuar aprendendo ao longo da vida.
 Aprender a fazer
Desenvolvimento de habilidades e o estímulo de novas aptidões são processos essenciais que criam condições necessárias para o enfrentamento das novas situações. “Privilegiar a aplicação da teoria na prática e enriquecer a vivência da ciência na tecnologia e destas no social passa a ter uma significação especial no desenvolvimento da sociedade contemporânea.” (p. 29)
 Aprender a viver
“Trata-se de aprender a viver juntos, desenvolvendo o conhecimento do outro e a percepção das interdependências, de modo a permitir a realização de projetos comuns ou a gestão inteligente dos conflitos inegáveis.” (p. 29)
 Aprender a ser
“A educação deve estar comprometida com o desenvolvimento total da pessoa.” (p. 30) Aprender a ser supõe: elaborar pensamentos autônomos e críticos, formular os próprios juízos de valor, exercitar a liberdade de pensamento, discernimento, sentimento e imaginação, para desenvolver os seus talentos e permanecer, tanto quanto possível, dono do próprio destino.
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“Aprender a viver e aprender a ser decorrem, assim, das duas aprendizagens anteriores...” (p. 30) “A partir desses princípios gerais, o currículo deve ser articulado em torno de eixos básicos orientadores da seleção de conteúdos significativos...” (p. 30) Eixo histórico-cultural e eixo epistemológico.
 A Base Nacional Comum
“A Base Nacional Comum contém em si a dimensão de preparação para o prosseguimento de estudos e, como tal, deve caminhar no sentido de que a construção de competências e habilidades básicas, e não o acúmulo de esquemas resolutivos pré-estabelecidos, seja o objetivo do processo de aprendizagem.” (p. 30) “A Base Nacional Comum também traz em si a dimensão de preparação para o trabalho. (...) Essa educação geral, que permite buscar informação, gerar informação, usá-la para selecionar problemas concretos na produção de bens ou na gestão e prestação de serviços, é preparação básica para o trabalho. Na verdade, qualquer competência rquerida no exercício profissional, seja ela psicomotora, socioafetiva oou cognitiva, é um afinamento das competências básicas. Essa educação geral permite a construção de competências que se manifestar-se-ão em habilidades básicas, técnicas ou de gestão.” (p. 31) Desenvolvimento de competências e habilidades básicas é garantia de democratização. O art. 26 da LDB determina: “estudos da Língua Portuguesa e da Matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política, especialmente do Brasil, o ensino da arte (...) de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos, e a Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola.” (p. 31) A proposta de organicidade do currículo (art. 36 da LDB) revigora a integração e articulação dos conhecimentos (interdisciplinaridade e transdisciplinaridade). A Base Nacional Comum não elimina a flexibilidade na organização dos conteúdos e na metodologia de ensino-aprendizagem e de avaliação. Organização curricular deve estar comprometida com o novo significado do trabalho no contexto da globalização e com o aluno como sujeito ativo. “Ressalve-se que uma base curricular nacional organizada por áreas de conhecimento não implica a desconsideração ou o esvaziamento dos conteúdos, mas a seleção e integração dos que são válidos para o desenvolvimento pessoal e para o incremento da participação social. Essa concepção curricular não elimina o ensino de conteúdos específicos, mas considera que os mesmos devem fazer parte de um processo global com várias dimensões articuladas.” (p. 32) “O fato de estes Parâmetros Curriculares terem sido organizados em cada uma das áreas por disciplinas potenciais não significa que estas são obrigatórias ou mesmo recomendadas. O que é obrigatório (...) são os conhecimentos que estas disciplinas recortam e as competências e habilidades a eles referidos e mencionados nos citados documentos.” (p. 32)
 As três áreas
“A organização em três áreas - Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias - tem como base a reunião daqueles conhecimentos que compartilham objetos de estudo e, portanto, mais facilmente se comunicam...” (p. 32)
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“A estruturação por área de conhecimento justifica-se por assegurar uma educação de base científica e tecnológica, na qual conceito, aplicação e solução de problemas concretos são combinados com uma revisão dos componentes socioculturais orientados por uma visão epistemológica que concilie humanismo e tecnologia ou humanismo numa sociedade tecnológica.” (p. 32) Cabe reconhecer a historicidade do processo de produção de conhecimento As áreas de conhecimento estão, de modo geral, assim definidas:
 Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Linguagem é a “...capacidade humana de articular significados coletivos em sistemas arbitrários de representação, que são compartilhados e que variam de acordo com as necessidades e experiências da vida em sociedade. A principal razão de qualquer ato de linguagem é a produção de sentido.” (p. 33) As linguagens se inter-relacionam nas práticas sociais e na história, fazendo com que a circulação de sentidos produza formas sensoriais e cognitivas diferenciadas. “Isso envolve a apropriação demonstrada pelo uso e pela compreensão de sistemas simbólicos sustentatos sobre diferentes suportes e de seus instrumentos como instrumentos de organização cognitiva da realidade e de sua comunicação. Envolve ainda o reconhecimento de que as linguagens verbais, icônicas, corporais, sonoras e formais, dentre outras, se estruturam de forma semelhante sobre um conjunto de elementos (léxico) e de relações (regras) que são significativas: a prioridade para a Língua Portuguesa, como língua materna geradora de significação; (...) o domínio de língua(s) estrangeira(s) como forma de ampliação de possibilidades de acesso a outras pessoas e a outras culturas e informações; o uso da informática como meio de informação, comunicação e resolução de problemas, (...); as Artes, incluindo-se a literatura, como expressão criadora e geradora de significação de uma linguagem (...); as atividades físicas e desportivas como domínio do corpo e como forma de expressão e comunicação.” (p. 33) Linguagens e códigos são dinâmicos, situados no espaço-tempo, com todas as implicações históricas, sociológicas e antropológicas. Trata-se da inserção do aluno como cidadão em um mundo letrado e simbólico.
 Ciências de Natureza, Matemática e suas Tecnologias
Qualitativamente diferente do Ensino Fundamental, a aprendizagem das Ciências da Natureza “...deve contemplar formas de apropriação e construção de sistemas de pensamento mais abstratos e ressignificados, que as trate como processo cumulativo de saber e de ruptura de consensos e pressupostos metodológicos. A aprendizagem de concepções científicas atualizadas do mundo físico e natural e o desenvolvimento de estratégias de trabalho centradas na solução de problemas é finalidade da área de forma a aproximar o educando do trabalho de investigação científica e tecnológica, como atividades institucionalizadas de produção de conhecimentos, bens e serviços.” (p. 33) Matemática é linguagem que é instrumento formal de expressão e comunicação de diversas ciências. Os discursos construídos pelas ciências não se confundem com o mundo físico e natural. “... os objetos de estudo são diferentes, enquanto constructos do conhecimento gerado pelas ciências através de leis próprias, as quais devem ser apropriadas e situadas em uma gramática interna a cada ciência.” (p. 34)
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O aprendizado desta área “... indica a compreensão e a utilização dos conhecimentos científicos, para explicar o funcionamento do mundo, bem como planejar, executar e avaliar as ações de intervenção na realidade.” (p. 34)
 Ciências Humanas e suas Tecnologias
“Nesta área, que engloba também a Filosofia, deve-se desenvolver a tradução do conhecimento das Ciências Humanas em consciências críticas e criativas, capazes de gerar respostas adequadas a problemas atuais e situações novas.” (p. 34) “A aprendizagem nesta área deve desenvolver competências e habilidades para que o aluno entenda a sociedade em que vive como uma construção humana, que se reconstrói ao longo de gerações, num processo contínuo e dotado de historicidade; para que compreenda o espaço (...) enquanto construído e consumido; (...) os processos de sociabilidade humana em âmbito coletivo, definindo espaços públicos e refletindo-se no âmbito da constituição das individualidades; para que construa a si próprio como um agente social que intervém na sociedade; para que avalie o sentido dos processos sociais (...) para que avalie o impacto das tecnologias no desenvolvimento e na estruturação das sociedades; e para que se aproprie das tecnologias produzidas ou utilizadas pelos conhecimentos da área.” (p. 34)
 Interdisciplinaridade e Contextualização
“Através da organização curricular por áreas e da compreensão da concepção transdisciplinar e matricial, que articula as linguagens, a Filosofia, as ciências naturais e humanas e as tecnologias...” pretende-se superar o tratamento compartimentado que caracteriza o conhecimento escolar. A tendência atual é analisar a realidade segmentada. Para isso contribui o enfoque meramente disciplinar. “Na perspectiva escolar, a interdisciplinaridade não tem a pretensão de criar novas disciplinas ou saberes, mas de utilizar os conhecimentos de várias disciplinas para resolver um problema concreto ou compreender um determinado fenômeno sob diferentes pontos de vista. Em suma, a interdisciplinaridade tem uma função instrumental.” (pp. 34-6) Interdisciplinaridade deve ser compreendida a partir de uma abordagem relacional (complementaridade, convergência e divergência). “Todo conhecimento é socialmente comprometido e não há conhecimento que possa ser aprendido e recriado se não se parte das preocupações que as pessoas detêm. O distanciamento entre os conteúdos programáticos e a experiência dos alunos certamente responde pelo desinteresse e até mesmo pela deserção que constatamos em nossas escolas. Conhecimentos selecionados a priori tendem a se perpetuar nos rituais escolares...” (p. 36) “A aprendizagem significativa pressupõe a existência de um referencial que permita aos alunos identificar e se identificar com as questões propostas.” (p. 36) “... toda aprendizagem significativa implica uma relação sujeito-objeto e (...), para que esta se concretize, é necessário oferecer as condições para que os dois pólos do processo interajam.” (p. 36)
 A parte diversificada do currículo
Destina-se a atender às características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela. Complementa a Base Comum e será definida em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar. “A parte diversificada do currículo deve expressar (...) as prioridades estabelecidas no projeto da unidade escolar e a inserção do educando na construção do seu currículo.” (p. 36)
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“O desenvolvimento da parte diversificada pode ocorrer no próprio estabelecimento de ensino ou em outro estabelecimento conveniado. (...) o desenvolvimento da parte diversificada não implica profissionalização, mas diversificação de experiências escolares com o objetivo de enriquecimento curricular, ou mesmo aprofundamento de estudos, quando o contexto assim exigir.” (pp. 36-7) Aspectos considerados centrais da nova concepção para o Ensino Médio:
 as relações entre as necessidades contemporâneas colocadas pelo mundo do trabalho e outras práticas sociais, a Educação Básica e a reforma curricular do Ensino Médio;
 a metodologia de trabalho utilizada para a elaboração da proposta;
 os fundamentos legais que orientam a proposta curricular do Ensino Médio;
 o papel da educação e da formação no Ensino Médio na sociedade tecnológica;
 os fundamentos teóricos da reforma curricular do Ensino Médio;
 a organização curricular na LDB, na regulamentação do CNE e nos textos da Secretaria de Educação Média e Tecnológica.
DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O ENSINO MÉDIO Ministério da Educação Conselho Nacional de Educação Câmara de Educação Básica Parecer CEB nº 15/98 Aprovado em 01/06/98 I. Relatório 1. Introdução Aviso nº 307, de 07/07/1997, do Ministério da Educação e do Desporto, envia para a CEB documento que apresenta propostas de regulamentação da base curricular nacional e de organização do Ensino Médio. O presente Parecer é fruto da consulta de variadas vertentes: estudo do próprio MEC por intermédio da SEMTEC (Secretaria de Ensino Médio e Tecnológico); amadurecimento oferecido pela elaboração das DCNEF; trabalho realizado pela CEB para formular as DCNs; a riqueza da contribuição dos conselheiros; contribuições brasileiras e estrangeiras, no Seminário Internacional de Políticas de Ensino Médio, organizado pelo CONSED, em 1996; e finalmente, as contribuições, críticas e sugestões da comunidade educacional brasileira em audiências públicas organizadas pelo CNE, na reunião de trabalho com representatnes dos órgãos normativos e executivos dos sistemas de ensino estaduais e várias reuniões, seminários e debates. 2. Diretrizes Curriculares: o papel do Conselho Nacional de Educação 2.1. Obrigatoriedade legal e consenso político Art. 9º, inciso IV da LDB: União em colaboração com os Estados e Municípios estabelecerá competências e diretrizes para a educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, que nortearão os currículos e conteúdos mínimos, assegurando formação básica comum.
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Art. 9º, alínea c, da lei nº 9.131, que trata do Conselho Nacional de Educação atribui a esse colegiado deliberar sobre as diretrizes curriculares propostas pelo Ministério da Educação e do Desporto. Art. 36 (incisos e parágrafos) da LDB apresenta diretrizes especificas no Ensino Médio, o que imprime às DCNEM significado e magnitude específicos. Diretriz (Dicionário Aurélio) - linha reguladora do traçado de um caminho ou de uma estrada, no primeiro caso, conjunto de instruções ou indicações para se tratar e levar a termo um plano, uma ação, um negócio, etc. Analogicamente, a primeira definição corresponde à LDB e a segunda, às diretrizes deliberadas pelo CNE. A expressão “diretrizes e bases” já recebeu muitas interpretações. Para os liberais da década de 40, segundo J. S. B. Horta, “„Diretriz‟ é a linha de orientação, norma de conduta. Base é superfície de apoio, fundamento. Aquela indica a direção geral a seguir, não as minudências do caminho. Esta significa o alicerce do edifício, não o próprio edifício que sobre o alicerce será construído. Assim entendidos os termos, a Lei de Diretrizes e Bases conterá tão-só preceitos genéricos e fundamentais.” (p. 62) A constituição de 1988 introduz competência de legislação concorrente em matéria educacional reforçando o caráter de “preceitos genéricos” das normas nacionais de educação. A LDB confirma o sentido descentralizador no art. 8º, par. 2º: Os sistemas de ensino terão liberdade de organização nos termos desta Lei. “... A LDB cria condições para que a descentralização seja acompanhada de uma desconcentração de decisões que, a médio e longo prazo, permita às próprias escolas construirem „edifícios‟ diversificados sobre a mesma „base‟.” (p. 63) A Lei nº 9.131/95 e a LDB delegam, em caráter propositivo ao MEC e deliberativo ao CNE, a responsabilidade de trazer as diretrizes curriculares da LDB para um plano mais próximo da ação pedagógica. As instâncias em sintonia deverão administrar a tensão para lograr equilíbrio entre as diretrizes nacionais e a proposta pedagógica da escola, mediada pela ação executiva, coordenadora e potencializadora dos sistemas de ensino. Resgata-se a interpretação federalista dada ao termo “diretriz” na Constituinte de 1946. “É esse o sentido que Cury dá às Diretrizes Curriculares para a Educação Básica deliberadas pela CEB do CNE: Nascidas do dissenso, unificadas pelo diálogo, elas não são uniformes, não são toda a verdade, podem ser traduzidas em diferentes programas de ensino e, como toda e qualquer realidade, não são uma forma acabada de ser.” (p. 63) A tarefa do CNE, no tocante às DCNEM, visa três objetivos principais:
 sistematizar os princípios e diretrizes gerais contidos na LDB;
 explicitar os desdobramentos desses princípios no plano pedagógico;
 dispor sobre a organização curricular da formação básica nacional e suas relações com a parte diversificada, e a formação para o trabalho.
“Estas DCNEM não pretendem, portanto, ser as últimas, porque no âmbito pedagógico nada encerra toda a verdade, tudo comporta e exige contínua atualização.” (p. 64) 2.2. Educação pós-obrigatória no Brasil: exclusão a ser superada Organização curricular do Ensino Médio atende os requerimentos do exame de ingresso à educação superior.
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A demanda ascendente por patamares mais avançados do sistema de ensino deve-se a uma “crescente valorização da educação como estratégia de melhoria de vida e empregabilidade.” (p. 64) “Estudantes que aspiram a trabalhar, trabalhadores que precisam estudar, a clientela do Ensino Médio tende a tornar-se mais heterogênea, tanto etária quanto sócio-economicamente, pela incorporação crescente de jovens e jovens adultos originários de grupos sociais, até o presente, sub-representados nessa etapa da escolaridade.” (p. 64) De 1985 a 1994, o crescimento, em média, do Ensino Médio superou 100%. Expansão quantitativa concentrada nas redes públicas, predominantemente nos turnos noturnos, que representaram 68% do aumento total. No mesmo período, a matrícula privada aumentou 21%. “O Brasil continua apresentando a insignificante taxa líquida de 25% de escolaridade da população de 15 a 17/18 anos no Ensino Médio. Outros tantos dessa faixa etária, embora no sistema educacional, ainda estão presos na armadilha de repetência e do atraso escolar do Ensino Fundamental.” (p. 65) A correção do fluxo do Ensino Fundamental porá às portas do Ensino Médio um grande número de alunos. “A expectativa de crescimento do Ensino Médio é ainda reforçada pelo fenômeno chamado „onda de adolescentes‟, identificado em recentes estudos demográficos.” (p. 65) Estudo da Fundação SEADE demonstra que, em 1992, cerca de 64% dos adolescentes estavam fora da escola; em 1995, este número caiu para 42%. “... a onda de adolescentes acontece num momento de escassas oportunidades de trabalho e crescente competitividade pelos postos existentes. Na verdade, os dois fenômenos somados - escassez de emprego e aumento geracional de jovens - respondem pela expressiva diminuição, na população de adolescentes, da porcentagem dos que já fazem parte da população economicamente ativa.” (p. 66) Segundo dados da UNESCO, o Brasil tem uma das mais baixas taxas de matrícula bruta na faixa etária dos 15 aos 17 anos. “Esse desequilíbrio se explica por décadas de crescimento econômico excludente, que aprofundou a fratura social e produziu a pior distribuição de renda do mundo.” (p. 66) “A falta de vagas no Ensino Médio público; a segmentação por qualidade, aguda no setor privado, mas presente também no público; o aumento da repetência e da evasão que estão acompanhando o crescimento da matrícula gratuita no Ensino Médio alertam para o fato de que a extensão desse ensino a um número maior e muito mais diversificado de alunos será uma tarefa tecnicamente complexa e politicamente conflitiva. Pelo caráter que assumiu na história educacional de quase todos os países, a educação média é particularmente vulnerável à desigualdade social. Enquanto a finalidade do Ensino Fundamental nunca está em questão, no Ensino Médio se dá uma disputa permanente entre orientações mais profissionalizantes ou mais acadêmicas, entre objetivos humanistas e econômicos.” (pp. 66-7) Cury diz sobre o Ensino Médio: “... a função propedêutica, dentro deste modelo, tem um nítido sentido elitista e de privilégio, com destinação social explícita.” (p. 67) “„E, portanto, do Ensino Médio que se vem cobrando uma definição sobre o destino social dos alunos, cobrança esta que ficou clara com a política, afinal fracassada, de profissionalização universal criada pela Lei nº 5.692/71.” (p. 67) “O momento que vive a educação brasileira nunca foi tão propício para pensar a situação de nossa juventude numa perspectiva mais ampla do que a de um destino dual. A nação ansiea por superar privilégios, entre eles os educacionais, a economia demanda recursos mais qualificados.” (p. 68)
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2.3. As bases legais do Ensino Médio brasileiro A LDB dá ao ensino médio o caráter de formação geral, superando no plano legal sua histórica dualidade. Art. 35 - finalidades do Ensino Médio:
I. consolidação e aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando prosseguimento dos estudos;
II. preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento;
III. aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
IV.compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando teoria e prática no ensino de cada disciplina;
Art. 36 - diretrizes para o currículo:
I. educação tecnológica básica, compreensão do significado da ciência, das letras e das artes, processo histórico de transformação da sociedade e da cultura; língua portuguesa como instrumento de comunicação, acesso ao conhecimento e exercício da cidadania;
II. metodologias de ensino e de avaliação que estimulem a iniciativa dos estudantes;
III. língua estrangeira moderna obrigatória e uma segunda, optativa;
§ 1º - conteúdos, metodologias e avaliação serão organizados de modo que o educando demonstre:
I. domínio dos princípios científicos e tecnológicos que presidem a produção moderna;
II. conhecimento das formas contemporâneas de linguagem;
III. domínio dos conhecimentos de Filosofia e Sociologia necessários ao exercício da cidadania.
§ 2º - atendida a formação geral, pode profissionalizar. § 3º - os cursos de ensino médio terão equivalência legal e habilitarão ao prosseguimento dos estudos. § 4º - preparação geral para o trabalho e, facultativamente, a habilitação profissional podem ser desenvolvidas em cooperação. Objetivo - desenvolvimento da capacidade de aprender e não o acúmulo de informações, conforme prevê art. 32 para o EF, do qual o nível médio é a consolidação e o aprofundamento. Preparação básica é o fim da dualidade do Ensino Médio. “Por ser básica, terá como referência as mudanças nas demandas do mercado de trabalho, daí a importância da capacidade de continuar aprendendo; não se destina apenas àqueles que já estão no mercado de trabalho ou que nele ingressarão a curto prazo; nem será preparação para o exercício de profissões específicas ou para a ocupação de postos de trabalho determinados. Assim entendida, a preparação para o trabalho - fortemente dependente da capacidade de aprendizagem - destacará a relação da teoria com a prática e a compreensão dos processos produtivos enquanto aplicações das ciências, em todos os componentes curriculares.” (p. 70) Destaca-se a importância que o art. 36 atribui às linguagens. 2.4. O Ensino Médio no mundo: uma transformação acelerada
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“Etapa da escolaridade que tradicionalmente acumula as funções propedêuticas e de terminalidade, ela tem sido a mais afetada pelas mudanças nas formas de conviver, de exercer a cidadania e de organizar o trabalho, impostas pela nova geografia política do planeta, pela globalização econômica e pela revolução tecnológica.” (pp. 70-1) “A facilidade de acessar, selecionar e processar informações está permitindo descobrir novas fronteiras do conhecimento, nas quais este se revela cada vez mais integrado. Integradas são também as competências e habilidades requeridas por uma organização na qual criatividade, autonomia e capacidade de solucionar problemas serão cada vez mais importantes, comparadas à repetição de tarefas rotineiras. E mais do que nunca, há um forte anseio de inclusão e de integração sociais como antídoto à ameaça de fragmentação e segmentação. Essa mudança de paradigmas - no conhecimento, na produção e no exercício da cidadania - colocou em questão a dualidade, mais ou menos rígida, dependendo do país, que presidiu a oferta de educação pós-obrigatória.” (p. 71) Descontadas as peculiaridades dos sistemas educacionais dos diferentes países destacam-se duas características: progressiva integração curricular e institucional entre as várias modalidades e visível desespecialização das modalidades profissionalizantes. A metade dos anos 90 assiste o surgimento de uma nova geração de reformas. “Estas já não pretendem apenas a desespecialização da formação profissional. Tampouco se limitam a tornar menos „acadêmica‟ e mais „prática‟ a formação geral. O que se busca agora é uma redefinição radical e de conjunto do segmento de educação pós-obrigatoriedade.” (p. 71) Às necessidades produtivas e à ênfase na unificação, agregam-se os ideais do humanismo e da diversidade. Tanto o ensino técnico e a formação profissional quanto o ensino geral precisam de profunda revisão. “A União Européia manifestou-se de forma contundente a favor da unificação do Ensino Médio, mas alerta para a exigência de considerar outras necessidades, além das que são sinalizadas pela organização do trabalho. E busca sustentação para sua posição no pensamento do próprio empresariado europeu: a missão fundamental da educação consiste em ajudar cada indivíduo a desenvolver todo o seu potencial e a tornar-se um ser humano completo, e não um mero instrumento da economia; a aquisição de conhecimentos e competências deve ser acompanhada pela educação do caráter, a abertura cultural e o despertar da responsabilidade social.” (p. 72) A UNESCO segue a mesma orientação e apresenta as quatro grandes necessidades de aprendizagem dos cidadãos do próximo milênio: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. Assiste-se a uma revalorização da importância dos afetos e da criatividade no ato de aprender. Busca-se integrar as cognições com as demais dimensões da personalidade. “A reposição do humanismo nas reformas do Ensino Médio deve ser entendida então como busca de saídas para possíveis efeitos negativos do pós industrialismo.” (p. 72) A constituição de uma cidadania de qualidade nova através da escola, dar-se-á pela união de conhecimentos e informações a um protagonismo responsável, que vão além da representação política tradicional. “Nas condições contemporâneas de produção de bens, serviços e conhecimentos, a preparação de recursos humanos para um desenvolvimento sustentável supõe desenvolver a capacidade de assimilar mudanças tecnológicas e adaptar-se a novas formas de organização do trabalho. Esse tipo de preparação faz necessário o prolongamento da escolaridade e a ampliação das oportunidades de continuar aprendendo.” (pp. 72-3)
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Contextualizada no mundo, a situação do Brasil é verdadeiramente alarmante. O Ensino Médio de maioria é um ideal a ser colocado em prática. É preciso sair do século XIX e chegar ao XXI. 2.5. Respostas a uma convocação “Sintonizada com as demandas educacionais mais contemporâneas e com as iniciativas mais recentes que os sistemas de ensino do mundo todo vêm articulando para respondê-las, a LDB busca conciliar humanismo e tecnologia, conhecimento dos princípios científicos que presidem a produção moderna e exercício da cidadania plena, formação ética e autonomia intelectual.” (p. 73) “Tornar realidade esse Ensino Médio ao mesmo tempo unificado e diversificado vai exigir muito mais do que traçar grandes curriculares que mesclam ou justapõe disciplinas científica e humanidades com pitadas de tecnologia. Tampouco será solução dissimular a formação básica sob o rótulo de disciplinas pseudoprofissionalizantes, como ocorreu após a Lei nº 5.692/71, ou, ao revés, oferecer habilitação profissional disfarçada de „educação básica‟, só porque agora assim mandam as novas diretrizes e bases da educação. Mais que um conjunto de regras a ser obedecido, ou burlado, a LDB é uma convocação que oferece à criatividade e ao empenho dos sistemas e suas escolas a possibilidade de múltiplos arranjos institucionais e curriculares inovadores.” (p. 73) “A resposta a uma convocação dessa natureza exige o diálogo e a busca de consenso sobre os valores, atitudes, padrões de conduta e diretrizes pedagógicas que a mesma LDB propõe como orientadores da jornada, que será longa e cheia de obstáculos.” (p. 74) 3. Fundamentos estéticos, políticos e éticos do novo Ensino Médio brasileiro A constituição e a LDB organizaram os valores estéticos, políticos e éticos sob três consignas: sensibilidade, igualdade e identidade. 3.1. A estética da sensibilidade “... a estética da sensibilidade vem substituir a da repetição e padronização, hegemônica na era das revoluções industriais. Ela estimula a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade pelo inusitado, a afetividade, para facilitar a constituição de identidades capazes de suportar a inquietação, conviver com o incerto, o imprevisível e o diferente.” (p. 75) “Diferentemente da ética estruturada, própria de um tempo em que os fatores físicos e mecânicos são determinantes do modo de produzir e conviver, a estética da sensibilidade valoriza a leveza, a delicadeza e a sutileza.” (p. 75) “A estética da sensibilidade realiza um esforço permanente para devolver ao âmbito do trabalho e da produção a criação e a beleza, daí banidas pela moralidade industrial taylorista. Por esta razão, procura não limitar o lúdico a espaços e tempos exclusivos, mas integrar diversão, alegria e senso de humor a dimensões de vida muitas vezes consideradas afetivamente austeras, como a escola, o trabalho, os deveres, a rotina cotidiana. Mas a estética da sensibilidade quer também educar pessoas que saibam transformar o uso do tempo livre num exercício produtivo porque criador. E que aprendam a fazer do prazer, do entretenimento, da sexualidade, um exercício de liberdade responsável.” (pp. 75-6) “Como expressão de identidade nacional, a estética da sensibilidade facilitará o reconhecimento e a valorização da diversidade cultural brasileira...” (p. 76) A estética da sensibilidade é indispensável a uma pedagogia que ser quer brasileira, portadora da riqueza de cores, sons e sabores deste País.
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A estética da sensibilidade valoriza a qualidade, a busca de aprimoramento permanente. “Ambos, qualidade e aprimoramento, associam-se ao prazer de fazer bem feito e à insatisfação com o razoável, quando é possível realizar o bom, e com este, quando o ótimo é factível. Para essa concepção estética, o ensino de má qualidade é, em sua feiúra, uma agressão à sensibilidade e, por isso, será também antidemocrático e antiético.” (p. 76) É uma atitude diante de todas as formas de expressão que deve estar presente no desenvolvimento do currículo e na gestão escolar. Quer promover uma crítica à vulgarização da pessoa; às formas estereotipadas e reducionistas de expressar a realidade. Uma escola inspirada nesta estética tem espaço e tempo planejados para acolher e expressar a diversidade dos alunos e oportunizar a troca de significados. “Nessa escola, a descontinuidade, a dispersão caótica, a padronização, o ruído, cederão lugar à continuidade, à diversidade expressiva, ao ordenamento e à permanente estimulação pelas palavras, imagens, sons, gestos e expressões de pessoas que buscam incansavelmente superar a fragmentação dos significados e o isolamento que ela provoca.” (p. 76) A estética da sensibilidade não exclui outras porque não convive com a exclusão, a intolerância e a intransigência. 3.2. A política da igualdade Incorpora a igualdade formal. “Seu ponto de partida é o reconhecimento dos direitos humanos e o exercício dos direitos e deveres da cidadania, como fundamento da preparação do educando para a vida civil.” (p. 76) Igualdade formal não basta. A busca da eqüidade e o combate a todas as formas de preconceito e discriminação são também expressão desta política. “A política da igualdade se traduz pela compreensão e respeito ao Estado de Direito e a seus princípios constitutivos abrigados na Constituição: o sistema federativo e o regime republicano e federativo. Mas contextualiza a igualdade (...) como valor que é público.” (p. 77) Essa visão implica em esforço para superar a antiga contradição entre a realidade da grande estrutura e o ideal da comunidade perdida, pela incorporação do protagonismo ao ideal de respeito ao bem comum. “Respeito ao bem comum com protagonismo constitui assim uma das finalidade mais importantes da política da igualdade e se expressa por condutas de participação e solidariedade, respeito e senso de responsabilidade, pelo outro e pelo público.” (p. 77) “Um dos fundamentos da política da igualdade é a estética da sensibilidade. É desta que lança mão quando denuncia os estereótipos que alimentam as discriminações e quando, reconhecendo a diversidade, afirma que oportunidades iguais são necessárias, mas não suficientes, para oportunizar tratamento diferenciado visando a promover igualdade entre desiguais.” (pp. 77-8) Inspiradora do ensino dos conteúdos curriculares, é, ela mesma, um conteúdo de ensino. “Mas, acima de tudo, a política da igualdade deve ser praticada na garantia de igualdade de oportunidades e de diversidade de tratamentos dos alunos e dos professores para aprender e aprender a ensinar os conteúdos curriculares.”(p. 78) 3.3. A ética da identidade
“A ética da identidade substitui a moralidade dos valores abstratos da era industrialista e busca a finalidade ambiciosa de reconciliar no coração humano aquilo que o dividiu desde os primórdios da idade moderna: o mundo da moral e o mundo da matéria, o privado e o
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público, enfim, a contradição expressa pela divisão entre a „igreja‟ e o „estado‟. Essa ética se constitui a partir da estética e da política e não por negação delas. Seu ideal é o humanismo de um tempo de transição.” (p. 78) “Como princípio educativo, a ética só é eficaz quando desiste de formar „pessoas honestas‟, „caridosas‟ ou „leais‟ e reconhece que a educação é um processo de construção de identidades. Educar sob inspiração da ética não é transmitir valores morais, mas criar as condições para que as identidades se constituam pelo desenvolvimento da sensibilidade e pelo reconhecimento do direito à igualdade a fim de que orientem suas condutas por valores que respondam às exigências do seu tempo.” (p. 78) “Uma das formas pelas quais a identidade se constitui é a convivência e, nesta, pela mediação de todas as linguagens que os seres humanos usam para compartilhar significados. (...) Vale dizer que a ética de identidade se expressão por um permanente reconhecimento da identidade própria e do outro.” (pp. 78-9) “âmbito privilegiado do aprender a ser, como a estética é o âmbito do aprender a fazer e a política do aprender a conhecer e conviver, a ética da identidade tem como fim mais importante a autonomia. Esta, condição indispensável para os juízos de valor e as escolhas inevitáveis à realização de um projeto próprio de vida...” (p. 79) Por isto a ética da identidade é tão importante na educação escolar. “Situações de aprendizagem programadas para produzir o fracasso, como acontece tantas vezes nas escolas brasileiras, são, neste sentido, profundamente antiéticas. Abalam a auto-estima de seres que estão constituindo suas identidades, contribuindo para que estas incorporem o fracasso, às vezes irremediavelmente.” (p. 79) “Situações antiéticas também ocorrem no ambiente escolar quando a responsabilidade, o esforço e a qualidade não são praticados e recompensados. Contextos nos quais o sucesso resulta da astúcia e não da qualidade do trabalho realizado, que recompensam o „levar vantagem em tudo‟ em lugar do „esforçar-se‟, não favorecem nos alunos identidades constituídas com sensibilidade estética e igualdade política.” (p. 79) “... a ética da identidade supõe uma racionalidade diferente daquela que preside à dos valores abstratos, porque visa a formar pessoas solidárias e responsáveis por serem autônomas.” (p. 79) “... a identidade autônoma se constitui a partir da ética, da estética e da política, mas precisa estar ancorada em conhecimentos e competências intelectuais que dêem acesso a significados verdadeiros sobre o mundo físico e social. Esses conhecimentos e competências é que dão sustentação à análise, à prospecção e à solução de problemas, à capacidade de tomar decisões, à adaptabilidade a situações novas, à arte de dar sentido a um mundo em mutação.” Não é por acaso que essa mesmas competências estão entre as mais valorizadas pelas novas formas de produção pós-industrial que se instalam nas economias contemporâneas.” (p. 79) “A sensibilidade da prática pedagógica para a qualidade do ensino e da aprendizagem dos alunos será a contribuição específica e decisiva da educação escolar para a igualdade, a justiça, a solidariedade, a responsabilidade. Dela poderá depender a capacidade dos jovens cidadãos do próximo milênio para aprender significados verdadeiros do mundo físico e social, registrá-los, comunicá-los e aplicá-los no trabalho, no exercício da cidadania, no projeto de vida social.” (p. 80) 4. Diretrizes para uma pedagogia da qualidade
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“Não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação sem aprendizagem é vazia e portanto degenera, com muita facilidade, em retórica moral e emocional.” (H. Arendt. Entre o passado e o futuro) De acordo com os princípios sistematizados anteriormente, as escolas de Ensino Médio, observarão na gestão, na organização curricular e na prática pedagógica e didática, as diretrizes expostas a seguir. 4.1. Identidade, diversidade e autonomia A organização curricular e institucional do Ensino Médio ainda privilegia poucos. “Aos demais restou a alternativa de estudar em classes esparsas de Ensino Médio, instaladas em períodos ociosos, em geral noturnos, de escolas públicas de Ensino Fundamental. Ou ainda em escolas privadas de má qualidade, muitas delas também noturnas...” (p. 81) “Essa situação gerou uma padronização desqualificada que se quer substituir por uma diversificação com qualidade. (...) Identidade supõe uma inserção no meio social que leva à definição de vocações próprias, que se diversificam ao incorporar as necessidades locais e as características dos alunos e a participação dos professores e das famílias no desenho institucional considerado adequado para cada escola.” (p. 81) Inspirada nos ideais de justiça, a diversidade reconhece que para alcançar a igualdade é necessário tratamento diferenciado para alcançar um patamar comum nos pontos de chegada, aferidos por mecanismos de avaliação dos resultados. “... para que tais mecanismos funcionem como sinalizadores eficazes, deverão ter como referência as competências de caráter geral que se quer constituir em todos os alunos e um corpo básico de conteúdos, cujo ensino e aprendizagem, se bem sucedidos, propiciam a constituição de tais competências.” (p. 82) “Os sistemas e os estabelecimentos de Ensino Médio deverão criar e desenvolver, com a participação da equipe docente e da comunidade, alternativas institucionais com identidade própria, baseadas na missão de educação do jovem, usando ampla e destemidamente as várias possibilidades de organização pedagógica, espacial e temporal...” (p. 82) “A diversificação deverá ser acompanhada de sistemas de avaliação que permitam o acompanhamento permanente dos resultados, tomando como referência as competências básicas a serem alcançadas por todos os alunos, de acordo com a LDB, as presentes diretrizes e as propostas pedagógicas das escolas.” (p. 82) “A autonomia das escolas é, mais que uma diretriz, um mandamento da LDB.” (p. 82) “... a LDB vincula autonomia e proposta pedagógica. Na verdade, a proposta pedagógica é a forma pela qual a autonomia se exerce. E a proposta pedagógica não é uma „norma‟, nem um documento ou formulário a ser preenchido. Não obedece a prazos formais nem deve seguir especificações padronizadas. Sua eficácia depende de conseguir pôr em prática um processo permanente de mobilização de „corações e mentes‟ para alcançar objetivos compartilhados.” (p. 83) A legitimidade e a eficácia de qualquer intervenção no espaço privativo da escola dependem “... de convencer a todos do seu valor para a ação pedagógica.” (p. 83) “Seria desastroso, nesse sentido, transformar em obrigação a incumbência que a LDB atribui à escola de decidir sobre sua proposta pedagógica, porque isto ativaria os sempre presentes anticorpos da resistência ou da ritualização.” (p. 83) A autonomia não implica na omissão do Estado. Mudam-se os papéis. Os órgãos centrais passam a exercer funções de formulação das diretrizes da política educacional e assessoramento à implementação dessas políticas.
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Salvo exceções o ensino médio no Brasil não tem identidade institucional própria. “No âmbito escolar, a autonomia deve refletir o compromisso da proposta pedagógica com a aprendizagem dos alunos pelo uso equânime do tempo, do espaço físico, das instalações e equipamentos, dos recursos financeiros, didáticos e humanos.” (p. 84) “... a autonomia depende de qualificação permanente dos que trabalham na escola, em especial dos professores. Sem a garantia de condições para que os professores aprendam a aprender e continuem aprendendo, a proposta pedagógica corre o risco de tornar-se mais um ritual.” (p. 84) “Alguém já disse que precisamos traduzir para o português o termo accountability com o pleno significado que tem: processo pelo qual uma pessoa, organismo ou instituição presta contas e assume a responsabilidade por seus resultados para seus constituintes, financiadores, usuários ou clientes.” (p. 84) “A proposta pedagógica, antes de tudo, deve ser simples: O projeto pedagógico da escola é apenas uma oportunidade para que algumas coisas aconteçam, e dentre elas, o seguinte: tomada de consciência dos principais problemas da escola, das possibilidades de solução e definição das responsabilidades coletivas e pessoais para eliminar ou atenuar as falhas detectadas. Nada mais, porém isso é muito e muito difícil.” (p. 85) A proposta pedagógica deve ser acompanhada por procedimentos de avaliação de processos e produtos, divulgação dos resultados e mecanismos de prestação de contas. 4.2. Um currículo voltado para as competências básicas Do ponto de vista legal, não há mais duas funções difíceis de conciliar para o Ensino Médio: preparar para a continuidade dos estudos e habilitar para o exercício de uma profissão. A condução autônoma de um projeto de vida pelo jovem reclama uma escola média de sólida formação geral. “Mas o significado de educação geral no nível médio, segundo o espírito da LDB, nada tem a ver com o ensino enciclopedista e academicista dos currículos de Ensino Médio tradicionais, reféns do exame vestibular.” (pp. 85-6) O Ensino Médio deverá continuar o processo de desenvolvimento da capacidade de aprender, com destaque para o aperfeiçoamento do uso das linguagens como meios de constituição dos conhecimentos, da compreensão e da formação de atitudes e valores. Trabalho e cidadania são os principais contextos nos quais a capacidade de continuar aprendendo deve ser aplicar, a fim de que o educando possa adaptar-se às mudanças na sociedade. “A LDB, nesse sentido, é clara: em lugar de estabelecer disciplinas ou conteúdos específicos, destaca competências de caráter geral, dentre as quais a capacidade de aprender é decisiva.” (p. 86) A compreensão dos fundamentos científicos-tecnológicos do processo produtivo, insere a experiência cotidiana e o trabalho no Ensino Médio como um todo e não apenas na sua Base Comum. “Para fazer a ponte entre teoria e prática, de modo a entender como a prática (processo produtivo) está ancorada na teoria (fundamentos científico-tecnológicos), é preciso que a escola seja uma experiência permanente de estabelecer relações entre o aprendido e o observado, seja espontaneamente, no cotidiano em geral, seja sistematicamente, no contexto específico de um trabalho e suas tarefas laborais.” (p. 86)
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Diz Castro: “Não se trata nem de profissionalizar nem de deitar água para fazer mais rala a teoria. Trata-se, isso sim, de ensinar melhor a teoria - qualquer que seja - de forma ancorada na prática.” (p. 86) Pressupostos para a organização do Ensino Médio:
 visão orgânica do conhecimento, afinada com as mutações que o acesso à informação está causando;
 disposição para perseguir essa visão organizando e tratando os conteúdos de ensino e as situações de aprendizagem, de modo a destacar as múltiplas interações entre as disciplinas do currículo;
 abertura e sensibilidade para identificar as relações que existem entre os conteúdos e situações de aprendizagens e os contextos de vida social e pessoal, de modo a estabelecer relação ativa entre o aluno e o objeto de conhecimento, relacionar o aprendido com o observado;
 reconhecimento das linguagens como formas de constituição dos conhecimentos e das identidades;
 reconhecimento e aceitação de que o conhecimento é uma construção coletiva, forjada socio-interativamente na sala de aula, no trabalho, na família e demais formas de convivência;
 reconhecimento de que a aprendizagem mobiliza afetos, emoções e relações com seus pares, além das cognições e habilidades intelectuais.
O Ensino Médio deve buscar: “Aprender a aprender e a pensar, a relacionar o conhecimento com dados da experiência cotidiana, a dar significado ao aprendido e a captar o significado do mundo, a fazer a ponte entre a teoria e a prática, a fundamentar a crítica, a argumentar com base em fatos, a lidar com o sentimento que a aprendizagem desperta.” (p. 87) Uma organização curricular que responda a esses desafios requer:
 desbastar o currículo enciclopédico, priorizando conhecimentos e competências de tipo geral;
 (re)significar os conteúdos curriculares como meios para constituição de competências e valores, e não como objetivos do ensino em si mesmos;
 adotar estratégias de ensino diversificadas, que mobilizem menos a memória e mais o raciocínio e outras competências cognitivas superiores;
 estimular todos os procedimentos e atividades que permitam ao aluno reconstruir ou „reinventar‟ o conhecimento didaticamente transposto para a sala de aula, entre eles a experimentação, a execução de projetos, o protagonismo em situações sociais;
 organizar os conteúdos de ensino em estudos ou áreas interdisciplinares e projetos que melhor abriguem a visão orgânica do conhecimento e o diálogo permanente entre as diferentes áreas do saber;
 tratar os conteúdos de ensino de modo contextualizado;
 lidar com os sentimentos associados às situações de aprendizagem para facilitar a relação do aluno com o conhecimento.
4.3. Interdisciplinaridade
“A interdisciplinaridade deve ir além da mera justaposição de disciplinas e, ao mesmo tempo, evitar a diluição delas em generalidades. De fato, será principalmente na possibilidade de relacionar as disciplinas em atividades ou projetos de estudo, pequisa e
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ação, que a interdisciplinaridade poderá ser uma prática pedagógica e didática adequada aos objetivos do Ensino Médio.” (p. 88) “Nesta multiplicidade de interações e negações recíprocas, a relação entre as disciplinas tradicionais pode ir da simples comunicação de idéias até a integração mútua de conceitos diretores, da epistemologia, da metodologia e dos procedimentos de coleta e análise de dados. Ou pode efetuar-se, mais singelamente, pela constatação de como são diversas as várias formas de conhecer. Pois até mesmo essa „interdisciplinaridade singela‟ é importante para que os alunos aprendam a olhar o mesmo objeto sob perspectivas diferentes. É importante enfatizar que a interdisciplinaridade supõe um eixo integrador, que pode ser o objeto de conhecimento, um projeto de investigação, um plano de intervenção. Nesse sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários. Explicação, compreensão, intervenção são processos que requerem um conhecimento que vai além da descrição da realidade e mobiliza competências cognitivas para deduzir, tirar inferências ou fazer previsões a partir do fato observado.” (p. 88) A compreensão do que Piaget chama de estruturas subjacentes não dispensa o conhecimento especializado, ao contrário. “Somente o domínio de uma dada área permite superar o conhecimento meramente descritivo para captar suas conexões com outras áreas do saber na busca de explicações.” (p. 89) “Segundo Piaget, a excessiva „disciplinarização‟ (...) se explica, com efeito, pelos preconceitos positivistas. Em uma perspectiva onde apenas contam os observáveis, que cumpre simplesmente descrever e analisar para então daí extrair as leis funcionais, é inevitável que as diferentes disciplinas pareçam separadas por fronteiras mais ou menos definidas ou mesmo fixas, já que estas se relacionam com a diversidade das categorias de observáveis que, por sua vez, estão relacionadas com nossos instrumentos subjetivos e objetivos de registro (percepções e aparelhos) (...) Por outro lado, logo que, ao violar as regras positivistas, (...) se procura explicar os fenômenos e suas leis, ao invés de apenas descrevê-los, forçosamente se estará ultrapassando as fronteiras do observável, já que toda causalidade decorre da necessidade inferencial, isto é, de deduções e estruturas operatórias irredutíveis à simples constatação (...) Nesse caso, a realidade fundamental não é mais o fenômeno observável, e sim a estrutura subjacente, reconstituída por dedução e que fornece uma explicação para os dados observados. Mas, por isso mesmo, tendem a desaparecer as fronteiras entre as disciplinas, pois as estruturas ou são comuns (tal como entre a Física e a Química (...)) ou solidárias umas com as outras (como, sem dúvida, haverá de ser o caso entre a Biologia e a Físico-Química)”. (J. Piaget, Para onde vai a Educação, Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1996) “A interdisciplinaridade pode ser também compreendida se considerarmos a relação entre o pensamento e a linguagem (...) seja nas situações de aprendizagem espontânea, seja naquelas estruturadas ou escolares, há uma relação sempre presente entre os conceitos e as palavras (ou linguagens) que os expressam, de tal forma que (...) uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento não expresso por palavras permanece na sombra.” (p. 90) Todas as linguagens trabalhadas na escola são por natureza “interdisciplinares”. É pela linguagem - verbal, visual, sonora, matemática, corporal ou outra - que os conteúdos escolares se constituem em conhecimentos.
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“Outra observação feita pelos estudos de Vigotsky refere-se à existência de uma interdependência entre a aprendizagem de conteúdos curriculares e o desenvolvimento cognitivo.” (p. 90) “Investigações sobre a aprendizagem de conceitos científicos em crianças e adolescentes indicam que a aprendizagem funciona como antecipação do desenvolvimento de capacidades intelectuais. Isso ocorre porque os pré-requisitos psicológicos para o aprendizado de diferentes matérias escolares são, em grande parte, os mesmos; o aprendizado de uma matéria influencia o desenvolvimento de funções superiores para além dos limites dessa matéria específica; as principais funções psíquicas envolvidas no estudo de várias matérias são interdependentes - suas bases comuns são a consciência e o domínio deliberado, as contribuições principais dos anos escolares. A partir dessas descobertas, conclui-se que todas as matérias escolares básicas atuam como uma disciplina formal, cada uma facilitando o aprendizado das outras (...)” Vigotsky, Pensamento e Linguagem. 4.4. Contextualização É importante ampliar as possibilidades de interação não apenas entre as disciplinas nucleadas em uma área como entre as próprias áreas de nucleação. “A contextualização pode ser um recurso para conseguir esse objetivo. Contextualizar o conteúdo que se quer aprendido significa, em primeiro lugar, assumir que todo conhecimento envolve uma relação entre sujeito e objeto. Na escola fundamental ou média, o conhecimento é quase sempre reproduzido das situações originais nas quais acontece sua produção. Por esta razão, quase sempre o conhecimento escolar se vale de uma transposição didática, na qual a linguagem joga papel decisivo.” (p. 91) A contextualização evoca áreas, âmbitos ou dimensões presentes na vida pessoal, social e cultural, e mobiliza competências já adquiridas. A LDB explicita o trabalho e a cidadania como dimensões de vida ou contextos valorizados. A aproximação teoria-prática também propõe Piaget quando diz: “compreender é inventar ou reconstruir, através da reinvenção, e será preciso curvar-se ante tais necessidades se o que se pretende, para o futuro, é moldar indivíduos capazes de produzir ou de criar, e não apenas de repetir.” (pp. 91-2) “O trabalho é o contexto mais importante da experiência curricular no Ensino Médio, de acordo com as diretrizes traçadas pela LDB em seus artigos 35 e 36.” (p. 92) Todos devem ser educados na perspectiva do trabalho enquanto uma das principais atividades humanas. “A riqueza do contexto do trabalho para dar significado às aprendizagens da escola média é incomensurável. Desde logo na experiência da própria aprendizagem como um trabalho de constituição de conhecimentos, dando à vida escolar um significado de maior protagonismo e responsabilidade.” (pp. 92-3) “Outro contexto relevante indicado pela LDB é o do exercício da cidadania. Desde logo é preciso que a proposta pedagógica assuma o fato trivial de que a cidadania não é dever nem privilégio de uma área específica do currículo (...) Exercício de cidadania é testemunho que se inicia na convivência cotidiana e deve contaminar toda a organização curricular. As práticas sociais e políticas e as práticas culturais e de comunicação são parte integrante do exercício cidadão, mas a vida pessoal, o cotidiano e a convivência e as questões ligadas ao meio ambiente, corpo e saúde também.” (p. 94) O contexto que é mais próximo é o da vida pessoal, cotidiano e convivência. “O cotidiano e as relações estabelecidas com o ambiente físico e social devem permitir dar significado a qualquer cnteúdo curricular, fazendo a ponte entre o que se aprende na escola e o que se faz, vive e observa no dia-a-dia.” (p. 94)
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“... contextualizar os conteúdos escolares não é liberá-los do plano abstrato da transposição didática para aprisioná-los no espontaneísmo e na cotidianeidade.” (p. 95)